26 junho

TETRALOGIA CIDADE (críticas)

Criticas-TETRALOGIA

“Tetralogia Cidade: arte que toca”

Essa é a arte que me toca. Estética e ética. Aquela que está ‘entre’ e dispensa a definição enfadonha institucionalizante. Aquela que está ao lado, no espaço entrecorpos do abraço; está precisa; porque verbo e sujeito. Não importa se entendo: me toca. Não interessa se fundamentada: me provoca. Contamina, Transgride e rompe os silêncios. Então, se ao término tenho um grito na alma, um rasgo no peito, esse trabalho me atingiu, catastroficamente. Agradeço

Liliane Soares é professora e coordenadora do programa de dança (SESC Santos)

“Tetralogia Cidade – Modos de Resistir”

Cidade espectral, coração da megalópole. Respingos da garoa paulistana se espalham no céu de Santo Amaro. No calçadão ambulantes e transeuntes dividem a-tensão do asfalto. No anonimato da multidão, artistas suam e soam poeira da vida sob passos de dança. O reencontro de seres que bailam com pessoas passantes. Barulho, confusão, mistura, mas há um ponto de paz. Um silêncio contundente, a trilha dos pés arranhando o chão. Ninguém é obrigado a parar, alguns seguem apressados e distraídos em suas telas. Outros são atravessados. Um por vez, no tráfego do trabalho. Aos poucos a fita crepe adere aos olhares e seduzidos pelos passos, os observadores se tocam e se abraçam. Cotovelos, mãos, durex colada na pele, pernas e pés, envoltos na mesma roda. Um círculo de afagos. A rua, enfim, se redime, e o ilustre desconhecido é humanizado a ponto de tornar a ser homem. A metáfora dos encontros em meio a desarmonia do existir urbano. A cidade que agrega nos transportes, dispersa pelas praças. Compro ouro dizia a placa, as várias fotos 3×4 não capturam o capital dos pobres. Afluentes dos marginais. Bravamente os músculos envoltos de ação reagem aos estímulos emocionais. É sobre a pedra que repousa o feto, sob as árvores que se abrigam os residentes. Nos cantos os indigentes, as indulgências, o morto estirado no palco de pó. Misturados no piche: as prostitutas, pedaços de lágrimas, os bêbados, recortes de sorrisos, desempregados, fatias de sonhos. Na ocupação temos o executivo com pasta e paletó, neta, vó, estudante, a arte que atravessa a rua e se ergue no chão. As veias que tingem de rubro verbos do todo. Contemplação corpórea e fruição estética, assim, engessados, amordaçados, paralisados, insistem em participar dos acontecimentos. Há na arte a possibilidade de movência, deslocamento, dissolução. Romper na rua com os percursos internos. A transgressão pulsa como opção. A arquitetura dos afetos se desvela frente e síncope aos compassos. Público e interpretes são notas do mesmo texto, dramaturgia do mesmo espaço. Partes uníssonas coreografando a poesia em seus cotidianos.

Karen Kristien é produtora cultural e estudante de Mídias (UFF)

“Tetralogia Cidade” – o público e a experiência corporal

Não vou falar aqui da técnica ou de assuntos que não domino. Quero falar das ações e reações que este espetáculo causou em mim e nos passantes daquela tarde de sábado. Fui assistir ao espetáculo “Tetralogia Cidade” sem muita informação do que seria esse trabalho da Cia. Gente. Sim, eu fui “assistir” no sentido mais receptivo do termo. Um grande equívoco. Esperava ser espectadora, e o porvir me demonstrou ser exatamente o oposto dessas minhas expectativas.
O espetáculo que eles proporcionaram no meio do calçadão de Santo Amaro não era para ser assistido, pois isso não bastava. Sentir, ver, tocar, escutar, refletir… Tudo fazia parte. O espetáculo não estava lá… Estava aqui, no meio da multidão, entre o vai e vem de gente. E é exatamente isso que acredito ter feito aquelas pessoas desacelerarem os passos e se permitirem a experimentar as sensações por eles propostas.
No centro do calçadão havia um retângulo delimitado por fita crepe. O espetáculo se inicia e os passantes aglomeram-se em torno desta forma. E quando menos se espera, como um corpo orgânico, maleável e dinâmico, o publico é conduzido a movimentar-se e sair de sua zona de conforto. Senhora, pai com criança, casal desavisado e pessoas confortavelmente sentadas são alvo de interação rompendo-se aquilo que se convencionou chamar de terceira parede, e todos parecem desconfortáveis. Tocar e interagir com pessoas desconhecidas não é nada confortável. O suor e o respirar, o movimento dos corpos muitas vezes guiada por outros… Mas o que as fez interagir então? A vergonha de sair da roda? Ou simplesmente a vontade de imitar os movimentos que os outros estavam fazendo? Talvez o que os motivasse fosse a sensação do pertencimento que tomou conta de todos naquele momento. Nenhum dos presentes tinha expectativa de assistir a um espetáculo de dança. Eles apenas estavam lá.
Durante todo o espetáculo era possível ouvir os comentários e ver as reações dos transeuntes. Alguns entendiam de imediato o que acontecia e paravam para espiar. Outros, imersos em seu mundo da tela do smartphone, nem notavam a movimentação e passavam por entre os interpretes. Não foram raras frases como foi raro “o que é isso?”, “tá atrapalhando a passagem”, ou mesmo “estão todos bêbados, saiam daqui”, comuns em situações em que interrompe o fluxo do cotidiano por algum motivo. Estas importantes reações nos conectam diretamente a realidade: fragmentária e limitada temporal e espacialmente. Fragmentos estes que forçaram o espectador a se movimentar conforme o momento e que eram ligados por tênues linhas criadas no espaço com fita crepe. Quantos fragmentos de espaço e de tempo que não percebo por conta da maneira pela qual experiencio o espaço? Será que há, no mundo contemporâneo, alguma experiência possível?
O espetáculo realizado pela Cia. Gente não parou a cidade, nem mudou a vida das pessoas do planeta – talvez inclusive devêssemos pensar se a arte deve ter esta função. Ela tem uma função enquanto arte política? Mas certamente tocou, chocou, chamou a atenção daquela pequena multidão de um sábado a tarde no calçadão de Santo Amaro, movimentando memórias, sensações e promovendo, de alguma forma, uma outra maneira de experienciar o tempo e o espaço na cidade.
Anna Clara Hokama é estudante de História da Arte (UNIFESP)

Escrito por admin .
26/junho/2015 às 02:06:55

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