06 setembro

Parem as Paralimpíadas para, antes, ouvir a 9a de Beethoven!

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Por Paulo E. Azevedo*

Não se espantem com o título. Farei imediatamente a minha exegese (tomando emprestado o termo que ficou ´popularizado pela erudição´ de Tom Zé): antes de avançar sobre tal dissertação queria que pudéssemos imaginar uma floresta. Imaginaram? Pois bem, agora peço que habitem essa mesma floresta sem haver risco algum na mesma – uma floresta com todas as árvores gêmeas, uma floresta sintética. Ela, ainda é uma floresta? Certo que não. Assim, pois, é a presença do espírito da Paralimpíada – notem que me refiro ao espírito que simboliza a presença desse corpo político, isto é, a mostra da expressão unívoca de um espírito que somente surge depois que a pira foi apagada. Então teremos uma parapira, uma paratocha, um paraespírito?

Essa dinâmica predispõe um clima de exceção; quem se insere nesse contexto é aquele que pode TAMBÉM – é sobre esse também que quero chamar a atenção dos efeitos ou impactos na presença de dois espaços de ser. O primeiro, exibido nas Olimpíadas, reforça o ideal greco-romano dos corpos eleitos, perfeitos, vitruvianos cabe citar; a mesma ordem simétrica e homogênea/homogeneizante instituída pelo mito do corpo do povo na égide do Nazismo. O outro, exposto nas Paralimpíadas, reforça a presença do ser que sobra desse ideal; e que mesmo são é outro ser. Portanto, ele não é também um atleta; ele é ´depois também´; vir depois é nesse caso vir com menos importância de chegar. E é assim que duas referências se projetam sobre ´esses seres´; e, ora reparem que mais uma expressão plena de bom samaritanismo, dessa vez; ´esses seres´, tem o mesmo efeito do ´depois também´. Mas quais são mesmas as referências? São o milagre e a superação. Cabe a pausa: milagre e superação nos descarrilham, de fato, para outra dimensão que não, necessariamente, é a do esporte. E, isso somente pode interessar a uma economia da alma; uma economia da superação para quem convive com o cotidiano de sobreviver na condição de atleta com pararecursos. ParaX = menosY.

Voltemos à floresta; suas sombras, suas mais diversas vegetações; seus lagos, seus bosques, seus bichos… A Olimpíada é uma só e poderia ter sido ambos os processos ocorridos ao mesmo tempo para que o público pudesse escolher com qual e quando interagir – “hoje vou ver o futebol.. o Tae-Kwondo” (se é de cego ou não, isso faz parte da escolha de quem quer estar ali assistindo). Mais que isso, com a devida atenção aos esportes de contato deveria haver incentivo para que o atleta pudesse competir em ambas as categorias – sabemos que pode no caso do paraatleta, mas tem que ser mais incentivado. Pois, imaginemos a beleza de estar com todos esses atletas. Se eles estivessem por aí na cidade do Rio, nos mesmos voos, chegando e saindo dos aeroportos, dos clubes, dos restaurantes, sobretudo, na mesma cerimônia de abertura – ali misturados no entre; com e sem pernas, com e sem braços. Quem produz a hierarquia valorativa dos corpos são essas concessões morais que depois se desdobram em práticas de poder e, poder + inclusão = (-) potência. A inclusão é um ato perverso e reativo da exclusão. Aqui estou me referindo à diversidade.

Todavia, o que parece ter pódio garantido é a super superação; não se trata do super homem nietzscheniano (da reinvenção de si; isso está em cada atleta com ou sem deficiência); o que se perfaz é a resolução maldita de um super homem midiático, milagroso que faz todos se sentirem menos, porque no fundo se sentem mais que esses atletas que chegam em rodas. Mas, eles chegam sempre depois.

Vamos recapitular: um país em crise, um Estado falido e conseguiram mesmo assim fazer com que o espírito Olímpico houvesse no brasileiro, mesmo que quase tardio. E, agora que acabou, vem para as Paralimpíadas o que sobra desse espírito.

Paraatletas? Pensei se houvessem paraartistas. Um parêntese: a dança, infelizmente, achando que era esporte quase cometeu esse crime. A diferença talvez possa estar na subversão da regra ou da técnica. O paraatleta é aquele que participa de uma atividade, cujas regras estão definidas antes dele (o sujeito da ação), sendo por isso o objeto da regra; o artista é aquele que pode subverter a regra e criar uma nova técnica (ou ao menos assim deveria ser), haja vista que é ele quem a funda e a recria, sem a premissa da inferioridade, mas sim de possibilidades. O que geram as categorias Olimpíadas e Paralimpíadas é a ideia estética de recorde e não apenas sua versão quantitativa daquele que sempre corre mais rápido. Na arte, a técnica que a expõe enquanto tal pode ser correr para trás, andar em câmera lenta e o rastejar pode ser o movimento mais harmonioso de percurso.

Passeando por esta floresta clonada, parei refletindo se a oferta ao esporte adaptado (sempre invisível, com exceção de quatro em quatro anos nas Paralimpíadas) não é mais um antídoto aos efeitos das brutalidades do trânsito e das armas de fogo (as quais tanto ferem e matam neste país) que uma escolha ou espaço das opções e politicas de acessibilidade e direito adquirido. E, aqui num recanto ouvindo esse gênio da música clássica fiquei imaginando o que ele nos diria se o sugerissem que deveria tocar somente para surdos. Alguma escuta, por favor, na liberdade das escolhas.

*Paulo E. Azevedo é artista, ex-atleta e antropólogo 

Escrito por admin .
06/setembro/2016 às 04:09:17

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