29 abril

Cia Gente entrevista Paula Lopes

Sobre Módio e como é trabalhar com Paulo E. Azevedo

Por Cia Gente

Rio, 28 de abril de 2016

CCT 14.7.16-12

A) O que mudou da expectativa da audição para o processo que agora estamos?

Como assistente de direção do mÓDIO enxergo as transformações artísticas/pessoais que ocorreram durante o processo criativo até agora de maneira nítida e espetacularmente embasada. É com clareza que se percebe a história de cada movimento; a origem de cada ideia representada.  Os integrantes desenvolvem seu papel no espetáculo de acordo com as vivências e sensações produzidas desde o começo da pesquisa, muitas vezes direcionada individualmente para potencializar cada “personagem”, tornando a movimentação mais verídica e pessoal. Já como intérprete é incrível notar como as primeiras movimentações durante as imersões, cruas e sem intenção de se tornarem algo a mais do que realmente são, foram minuciosamente trabalhadas e transformadas em estruturas coreográficas recheadas de signos e significados, porém sem perder a essência das ideias e diretrizes iniciais.

B) Quais as principais provocações sentidas no corpo que dança?

Penso que as provocações sentidas giram em torno do conceito do desequilíbrio. Desequilíbrio tanto físico (não só em relação ao próprio movimento/ação de desequilibrar, mas também no sentido de sair da zona de conforto de uma movimentação pré-estipulada e já conhecida por esses corpos) quanto ideal. Na verdade esses dois blocos (físico e mental/ideal) não se separam dentro do ser humano, eles estão sempre se relacionando e se um é estimulado de determinada maneira é provável que o outro sofra mudanças e reações de acordo com essa experiência. Dessa forma os desequilíbrios vindos do mundo das ideias ou do movimento geram questões interessantes para os artistas/intérpretes deste trabalho, pois deslocam valores e conceitos que poderiam parecer muito arraigados e firmes, desestruturando e talvez, trazendo outras formas de estruturar e enxergar o próprio viver de cada um.

C) Como você se representa nesse processo?

Acho que tenho um papel duplo dentro desse processo. O primeiro de assistir (no sentido de auxiliar) os intérpretes a alcançarem não só os objetivos propostos pela direção, mas também a realmente entenderem como essas conexões corporais se dão nessas relações, para que o movimento seja autêntico, legível e interessante para o próprio dançarino que o produz. O segundo de tentar reverter esse processo para dentro de mim. Como colocar em prática, no meu corpo, como intérprete, tudo aquilo que transmito para os demais como assistente de direção? A consciência do corpo em movimento, a expressividade em cena, as relações espaciais e interpessoais, tudo isso é uma visão de fora para dentro enquanto estou na assistência. Porém este processo deve ser revertido e começar do zero quando se trata de uma visão de dentro para fora para compor as minhas movimentações, cenas e ideias.

o pensador

 

D) Como é trabalhar com Paulo E. Azevedo?

É como uma rota de mão dupla. A ida, sendo sempre muito generoso com minhas ideias e forma de expressar o que penso/sinto mesmo que não acredite ou discorde das mesmas, rompendo cada vez mais as vigas que estruturam meu pensamento, fazendo-me muitas vezes refletir sobre os assuntos que estamos estudando, em como estes são recorrentes no meu cotidiano como artista e como eles me modificam como ser humano,

mudando, as vezes, radicalmente a minha opinião. A volta, exercendo com propriedade e compromisso a função de diretor e mestre, mostrando que os questionamentos, quase sempre, são mais importantes do que as respostas para estes. Dessa forma, o aprofundamento e a intensidade da minha relação com o próprio trabalho cursa um caminho mais verdadeiro, íntegro e versátil, pois a maneira como expõe nunca é impositiva e sim persuasiva, enxergando possibilidades em o que aparentemente seriam ruas sem saídas. É uma infinita troca de vivências, sempre valorizando o que é único e o que pertence a cada indivíduo, tornando prazeroso o convívio e o trabalho com esse excelente pensador e realizador da arte.

 

Confira na próxima matéria a entrevista de Karen Kristien com o criador de Paulo E. Azevedo.

 

#mÒDIO #PauloEmilioAzevedo #CiaGente #Paula Lopes

Escrito por admin .
29/abril/2016 às 01:04:37

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>