10 maio

Cia Gente apoia nova rede de protagonismos, dessa vez no esporte

Sobre rampas e voos

A arte de pedalar através de um sonho

Por Paulo E. Azevedo

 

Macaé, 10 de maio de 2016.

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O professor Dudu Jandre saltando alto na pista

 

Somos assim: sonhamos o voo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.                              Fiodor Doistoiévski

 

Esse texto começa com uma pergunta aos praticantes do bicicross: o que ocorre com seu coração quando você desce a rampa? A resposta de um coração, sabemos bem que vem antes pela expressão do rosto do que pela palavra propriamente dita. Então dois ou três segundos depois da questão feita, os olhos brilham e como se tentassem captar e ou explicar o texto miocárdico, artérias e veias trazem à boca algumas palavras. Mas são palavras tentando, ainda se encontrar.

Quando estive em contato pela primeira vez com o bicicross em Macaé, lembrei-me da pista em que praticava esse esporte quando, ainda garoto, situada próxima à rodoviária. Tantas vezes chegava em casa todo machucado, ralado e minha mãe aplicava merthiolate – aquele tão temido que ardia nos fazendo chorar mais pelo efeito de sua Química que pelos tombos de nossa Física. Quem lembra? Recentemente, fui convidado por uma grande amiga ao Parque Aeroporto para conhecer de perto o projeto Macaé Pró Bike. Animei em ir e incentivei meu filho de 08 anos, Hiago. Nesse momento, ele ainda se encontrava com receio de pedalar sem as rodinhas. Pois, então veio minha grata surpresa enquanto pai e em seguida na avaliação de um educador. Em menos de uma hora, Hiago com os estímulos do professor estava pedalando no asfalto entre cones e se preparando para em breve acessar a rampa.

O professor em questão é o campeão Eduardo Jandre, o Dudu (vide foto), que com estilo próprio nas manobras radicais mostra tão rapidamente também sua vocação de liderar e fazer a coisa caminhar, ou por assim dizer, voar. A pista, situada no Parque Aeroporto é na atualidade a única em funcionamento regular no Estado do Rio de Janeiro – a outra, localizada em Deodoro está preparada para uso exclusivo dos Jogos Olímpicos deste ano. A pista foi construída pelas mãos de Dudu, das pessoas da comunidade e de seus parceiros Jorge Gomes, Juliano Oliveira e Guilherme Rocha, todos eles membros da Associação Macaense de Bicicross. Na ocasião, Dudu lembra que se tratava de um terreno abandonado com entulhos, servindo como lócus de venda e uso de drogas no bairro e exposto como lugar propício à proliferação de doenças. A principal motivação para criação da pista esteve em incentivar as crianças através desse esporte, sobretudo, preocupado em não deixar que a violência gratuita (também presente no bairro) pudesse fazer mais vítimas na infância e adolescência. Ainda assim, era a possibilidade de se ter acesso a novas experiências, conhecendo outras realidades, pessoas e desfrutando de intercâmbios em diferentes regiões, cidades e Estados do Brasil e de outros países, a partir de uma cultura lúdica da criança que é pedalar.

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– Crianças descem a rampa em mais um desafio -

E assim pedalaram… E aquilo que iniciou como uma estratégia de contenção da violência no bairro, atualmente se transformou em ações concretas que estimulam nos participantes a realização de seus sonhos. Foi então que depois de tantas idas que passei a frequentar o projeto, deparei-me com uma explicação mais estruturada da identificação com o mesmo. Aliás, uma dupla identificação: o projeto funciona na raça, no amor, na dedicação, na doação e seus interlocutores vivem intensamente cada obstáculo e os desafios por eles lançados. Lembrei-me de minha infância quando também num terreno meu pai o transformou em campo de futebol e em minha casa a cada final de semana havia mais de cem crianças para jogar bola – no final minha mãe e minha irmã preparavam suco e cachorro quente. Ali resgatei esse espírito do compartilhar; mas ao invés de um campo de futebol, uma pista de cross e um container como escritório e oficina das bicicletas. Mais fui além, como idealizador da Cia Gente sabia que se tratava de identificar, reconhecer e fomentar protagonistas. Dudu é um desses que faz a diferença – as fotos de Paolla Itagiba e a matéria que ora escrevo são estratégias para que essa inciativa ganhe mais visibilidade e possa ter melhores condições à participação de tantas crianças que querem vivenciar esse esporte. Trata-se de uma prática que precisa de proteção para evitar acidentes mais lesivos e isso o torna custoso – um equipamento completo, incluso a bicicleta varia entre R$1.500 a 2.000,00.

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– No containner uma mensagem alentadora -

Fundado em 22 de abril de 2015, com pouco mais de dois anos o projeto tem a participação de 76 crianças e adolescentes, sendo que quase um terço desse público (isto é 24 pessoas) já tem índice de campeonatos regionais e nacionais. Ainda assim, três dos atletas já garantiram vaga para o mundial desse ano a ser realizado na Colômbia no mês de junho. Crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos de idade são o público alvo do projeto. Durante uma das aulas conversamos com dois deles e uma das mães incentivadoras: Daniel Azevedo (12) tem três anos de prática e é um dos atletas de índice de campeonato brasileiro e sabe que mesmo arriscando-se na queda prefere a ousadia de não acovardar-se. O menino sonha em participar do mundial e se dedica bastante para isso. Daniel tem em seu gesto a alma de um verdadeiro campeão, cuja principal ação é incentivar os que estão iniciando na pista. Já Maria Clara Castilho (12), a única menina do projeto diz que a adrenalina te acorda sem que se deixe de sonhar. A menina pretende ser campeã e deseja que seu sonho sempre seja maior que o seu medo. Por fim, Andressa Mota, mãe de Cauan (6) e Rian (7), diz que é muita emoção (e a cada dia uma nova se exibe) ver seus filhos desde os 4 anos de idade, mas lamenta o pouco incentivo dado. Com exceção da bolsa atleta que Dudu e seus parceiros recebem da Prefeitura Municipal de Macaé, todo o projeto ocorre sem outros recursos públicos ou privados, sendo os professores não remunerados pala atividade docente.

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– O campeão mirim Daniel Azevedo -

As aulas ocorrem de modo programado três vezes por semana – 2as, 4as e 6as das 08:30 às 10:30 e das 14:30 às 16:30, sempre respeitando os contra turnos das crianças em relação às atividades escolares. Os impactos dessa ação podem ser medidos não apenas na participação das crianças e assiduidades das mesmas, mas também no respeito das mesmas aos educadores, nos índices alcançados e na participação das famílias que interagem e valorizam a satisfação dos filhos dentro e fora da pista. Dito de outra forma: se faltam recursos financeiros, não faltam recursos afetivos. A comunidade abraça o projeto Macaé Pró Bike e esse é o principal argumento para ser reconhecida como uma iniciativa que faz a diferença.

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– o movimento do cross fazendo ecos –

 

Na volta para casa, depois de observar emocionado Hiago descer a rampa pela primeira vez perguntei a ele o que sentiu, a mesma pergunta que introduziu esse texto. Hiago, na sua poesia revigora Doistoiévski e encontra as palavras pro coração dizer; afinal a boca nada diz; ela apenas transmite a emoção em versos e verbos: “quando desci, o vento no rosto me deu liberdade”. E isso não é voar e sublimar o terror do vazio?

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– Hiago e sua utopia -

© Todas as fotos são de Paolla Itagiba

 

#MacaéPróBike #Cia Gente #Hiagocross

Escrito por admin .
10/maio/2016 às 08:05:14

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